Fundaj entrega relatório de pesquisa sobre impacto da pandemia da covid-19 nas crianças

Foto: José Cruz / Agência Brasil

Há cinco anos, a pandemia de Covid-19 provocava uma mudança brusca na realidade de todo o planeta. Empresas, estabelecimentos comerciais, escolas e diversas outras instituições públicas e privadas tiveram suas rotinas modificadas pela necessidade de distanciamento social devido ao perigo iminente do coronavírus. No âmbito individual, as dinâmicas sociais e as relações interpessoais também foram profundamente mexidas pela nova realidade imposta para evitar o contágio. Foi na vida das crianças, no entanto, que os impactos foram ainda maiores no dia a dia.

Este é o ponto de partida da pesquisa “A pandemia de covid-19 e as crianças: estudo das vivências e representações em época de isolamento social”, realizada pelo Centro de Estudos de Cultura, Identidade e Memória (Cecim), da Diretoria de Pesquisas Sociais (Dipes) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Sob coordenação da pesquisadora Patrícia Simões, que também integra o Grupo de Pesquisas Infância e Educação na Contemporaneidade (GPIEDUC), o estudo relatou percepções, vivências e experiências de crianças diante do distanciamento social durante a pandemia.

Para a equipe de pesquisa responsável pelo estudo — Ana Júlia Lacerda Meira Menezes, Mariana Uchôa Simões Barbosa, Milene Morais Ferreira, Riva Resnick e Rosimere Ferreira da Penha —, há uma expectativa de que a análise realizada possa oferecer aos profissionais da educação e demais áreas que atuam direta ou indiretamente com as crianças e as famílias delas uma contribuição única para entender como elas aprendem. Além disso, as pesquisadoras também esperam que os resultados do estudo permitam o melhor enfrentamento das dificuldades de desenvolvimento às crianças decorrentes da pandemia e do isolamento social.

Para dar corpo à pesquisa, 40 crianças — das quais, 29 moravam no Brasil e 11 viviam em outros países, incluindo Argentina, Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Israel e Portugal — responderam a duas questões: “o que é o coronavírus?” e “como está sendo o isolamento que você está vivendo?”. Com o apoio das famílias durante as entrevistas, a equipe de pesquisadoras recebeu respostas na linguagem de preferência de cada criança, incluindo áudio, vídeo, desenhos, colagens ou por relatos escritos. Patrícia Simões explica que as famílias das crianças, escolhidas pela proximidade com a equipe de pesquisa, foram orientadas a registrar o processo de produção dessas respostas. “As orientações eram dadas nesse contato, mas também tínhamos um Termo de Compromisso Livre e Esclarecido que orientava a realização dos registros pela família”, explica.

Um fator importante para a realização da pesquisa também foi o acordo entre as pesquisadoras, a família e a própria criança para participar no estudo. Apesar de um termo de consentimento ter sido exigido dos responsáveis, as crianças também tiveram parte na escolha. “Na gravação, os termos de consentimento que enviamos para os pais são repetidos para as crianças que expressam seu consentimento na gravação. Elas entenderam, queriam ajudar, compreenderam que suas opiniões poderiam ser úteis para a compreensão dos seus pontos de vista e até como orientação para outras crianças”, afirma a coordenadora do estudo.

O conteúdo do material recebido pela equipe de pesquisa foi analisado de acordo com três temáticas: corpo e movimento, tempo e espaço, e escola. O estudo buscou revelar percepções, vivências e experiências de crianças no contexto de isolamento social durante a pandemia. A perspectiva teórica adotada é a de autores dos novos estudos sociais da infância que consideram a criança como sujeito social, capaz de ressignificar os acontecimentos, entender e opinar sobre como os efeitos macro e micro das crises sociais impactam seu próprio grupo geracional e os adultos que lhe rodeiam. As narrativas gráficas e verbais evidenciaram os sentimentos de tristeza, perda, dor e medo que o recolhimento nas casas e a companhia dos familiares revertia em proteção, segurança e acolhimento. As crianças apontaram para a mudança no espaço da casa que transformou-se em lugar de trabalho dos pais, estudo e brincadeira e, sobre essas mudanças, expressaram sentimentos ambivalentes. Por sua vez, a cidade representa o perigo, o desconhecido, o proibido e a escola é associada à possibilidade de locomoção, à mobilidade e à garantia da experiência do deslocamento.

Além de avaliar a visão das crianças sobre a pandemia e sobre o isolamento social provocada pelo coronavírus, a pesquisa também evidenciou a relação entre a infância e a escola diante das dificuldades impostas pelo distanciamento. Em apenas um dos vídeos mencionados no relatório, a escola aparece espontaneamente na fala da criança, sem estar associada aos amigos. “Outras pesquisas mostram registros parecidos: a importância e o valor da escola, para as crianças, está muito relacionada aos momentos de interação, amizade, diversão, companheirismo com os colegas e a afetividade com as professoras”, constata Patrícia Simões.

Embora não seja uma questão fácil de ser respondida, a pesquisadora da Fundaj vê essa associação entre o ambiente de estudos e a afetividade como algo esperado. “Quando perguntamos a alguém – a você – o que lembra da sua Educação Infantil, a tendência é lembrar de algo afetivo e não do que você aprendeu nessa etapa”. Para ela, o modelo de escola adotado no Brasil e em outros países que a pesquisa alcançou é muito conteudista e se distanciou das vivências das crianças. “Precisamos de escolas se reinventem e se aproximem das crianças e de suas famílias porque esse encontro ajudará a escola a cumprir o seu papel de, junto com as famílias, educar e cuidar das crianças”, finaliza Simões.

Assessoria de Comunicação do MDS, reprodução da Fundaj 

Fonte: Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome